Stalimir Vieira me ganhou no primeiro mês de faculdade quando li seu livro “Raciocínio criativo na publicidade”, cuja proposta era “pense ao contrário”. E para tanto, se deveria agir com paixão: “uma coisa que mexe com a gente, transformando-nos de meros espectadores, em agentes absolutamente envolvidos". Ou seja, "tira-nos da platéia e nos coloca no palco”. E afirmava ainda que “o problema é dotado do encanto de carregar, misteriosa, a própria solução”.
Anos depois, na minha pós-graduação em ciência do consumo, me deparo com um artigo dele na Revista da ESPM e ele volta a me surpreender, em defesa da propaganda e da liberdade. Saboreiem um trecho:
“O objetivo da publicidade é, sempre foi e será identificar vulnerabilidades sociais, morais e emocionais, com a intenção explícita de atuar sobre elas e alcançar seus objetivos. Nem sua maior razão de ser, nem seu maior poder de persuasão, nascem na condição de profissão ou ciência, presunção recentíssima, forjada apenas numa tentativa de classificar procedimentos, diante do acirramento da competição pelo mercado. Mas eram inatos em nossos ancestrais, mercadores e pregoeiros, desde sempre. Balidos de ovelhas, sinetes, traques, cores, aromas, perfumes, essências, gritos roucos... compunham, entre muitos outros apelos, o anúncio da chegada do vendedor, acontecimento aguardado com ansiedade nos povoados. E o ‘estado de graça’, gerado na comunhão do visível com o invisível, do real com o imaginário, seduzia e hipnotizava vilas inteiras... Ocasião em que o povo só tinha sentidos para aquilo que os aguçava, manipulado deliberadamente pelos negociantes. Uma festa. Uma festa inventada com o interesse de fazer lucro. Mulheres, homens e crianças, em escalas diferentes de percepção, comungando o sentimento de uma felicidade provocada por atitudes de sensibilização certeira sobre seus estados latentes de desejo. A excitação geral era alimentada permanentemente – a fumaça de um assado, o espargir de um perfume, o descortinar de um tecido, o brilho de um dourado – para que a predisposição para o consumo não arrefecesse em nenhum momento. Uma fórmula perfeita porque intuída por antigas sabedorias: ao termos despertado alguns aspectos de nossa natureza – a viciosa busca pelo prazer, por exemplo – vamos tratar de atendê-los, de um jeito ou de outro. E não haverá lei capaz de impedir a cumplicidade entra a carência gerada pelo pressentimento da falta de sentido da vida e a capacidade de nos iludirmos com a possibilidade de ela poder ser suprida ou disfarçada por prazeres que neutralizem nossas angústias. Tentar, portanto, domar a publicidade por meio de postulados moralistas, é como pretender manter a fumaça presa numa gaiola. A publicidade, como toda expressão filosófica, é inatingível e livre por natureza e, pelo mesmo motivo, não há maneira, sem ser cerceadora, ditatorial e violenta contra a condição humana, que possa tentar submetê-la a vocações coercitivas.”
É por isso que eu gosto tanto de publicidade e propaganda! E é de comunicadores como o Stalimir, que a gente, enquanto consumidores precisamos!